segunda-feira, 13 de agosto de 2012

UMA INTERPRETAÇÃO DO EMINENTE POEMA DE DRUMMOND: NO MEIO DO CAMINHO

De: Michel Gustavo de Almeida Silva

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia.


Numa olhada superficial o que chama atenção de imediato nesse poema antológico de Drummond e da língua portuguesa?  Com certeza é a repetição de frases aparentemente sem nexos. Seria apenas uma coleção de frases banais repetitivas que simplesmente não dizem nada? E na entrelinhas? 
Depende do olhar do leitor. 

Todos nós ganhamos nosso pão, fazemos amor, sonhamos e fazemos coisas tidas como normais ou, simplesmente nadamos contra a correnteza do rio que leva a maioria para certo lugar, inúmeras coisas, no entanto, é raro sairmos da nossa cotidianidade. Heidegger disse que o ser humano consegue ir além do mundo cotidiano, raríssimas vezes, e isso é sempre um acontecimento que causa muita angústia no ser humano, angústia caracterizada por um sentimento de estar imerso no nada, na ausência de significado para a vida. O que podemos perceber no célebre poema? A repetição das frases é proposital, simboliza a rotina do cotidiano da existência humana. 

Há fatos, vozes, sensações que são verdadeiros ‘’dé javù’’ dado a monotonia e a previsibilidade da nossa existência cotidiana. Claro, apesar de tantas agruras de uma história que tem como motor móvel a violência e a morte, ainda que, saibamos por intermédio de Darwin que não somos seres privilegiados pela Suma Criação, através do viés de Copérnico que nosso planeta querido não é o centro do universo, insistimos em acreditar que o amanhã será melhor, alimentamos sonhos, estabelecemos metas e cultivamos vários idealismos. Essa rotina é tão repetitiva e tão banalizada por essa nossa crença em idealismos que nossas mentes acabam sendo anestesiadas por ideologias que nos mantém longe dos grandes acontecimentos da vida. Acomodamos. A terra passa a ser a nossa casa por direito. Tudo vai, nem tanto para o mal e nem tanto para o bem, sempre mais do mesmo, até que, certo acontecimento nos serve como um choque de realidade e nos desinstala da nossa pseudo_ segurança, da nossa conveniente familiaridade com tudo o que nos rodeia. 

Esse acontecimento é a pedra, o empecilho, a encruzilhada, aquilo que nos tira o chão que pode ser o rompimento de uma relação amorosa, a competição predatória do sistema capitalista, a propaganda do hedonismo, a morte de um ente querido, um ato discriminatório, um golpe de estado, a queda na bolsa de valores, a descoberta de um câncer, enfim, pedras na nossa caminhada não faltam. O problema é que, muitas vezes, fingimos não ver e nos escondemos na falsa crença de que o mundo é objetivo e a nossa subjetividade (nosso eu, nossa personalidade) é algo que se encaixa perfeitamente na moldura dessa suposta objetividade do mundo (sociabilidade, coexistência, sociedade) que nós mesmos inventamos. Durante grande parte do tempo das nossas vidas nós não lembramos que a grande verdade da vida é que, a passagem do tempo é inevitável, seja na rotina, no deslocamento cotidiano ocasionado pela angústia, até, mesmo quando a morte do outro toma o nosso tempo de vida que, também culmina na morte. O que intuímos com a repetição aparentemente sem nexo das frases do poeta Drummond? 

Simboliza o nosso cotidiano marcado pela rotina e a nossa consciência anestesiada pelas ideologias amplamente divulgadas pelos meios de comunicação que nos colocam na impessoalidade e subtrai a nossa singularidade. E a pedra? Seria aquilo que simboliza certo empecilho marcante no nosso passar do tempo? É provável que sim, pois, o eu - lírico do poema nos dá a pista de que apesar de estar com a mente cansada de uma vida extremamente previsível, sabe que esta no meio do caminho, que se, ainda respira é por que a vida continua, seja na velhice, na adolescência, ou na fase adulta em qualquer lugar que estiver e haver oxigênio. A morte ainda não existe para ele, pois, sua consciência lhe alerta que um acontecimento marcante na sua existência pode ser o ponto que causou todo o seu pessimismo e desanimo, ou, simplesmente pode ser o choque de realidade que todos nós precisamos no decorrer das nossas vidas. Choque esse que o fez encarar a vida com olhos mais abertos, desconfiados e inquisidores, que o faz se atentar para a importância de se ter uma história, uma memória. 

Somos ocidentais e inevitavelmente somos metafísicos demais, idealizamos demais a realidade. O que seria de nós senão houvesse os reveses, as pedras, as adversidades e os empecilhos, em suma, esses choques de realidade? Acredito que o poema é um brado positivo de alguém que obteve maturidade suficiente a ponto de despertar-se do mundo dogmático e da ingenuidade de pensar que a vida é algo que pode caber na moldura estreita do pensamento humano e passar a enxergar que a vida é sempre mutável e para além da vida humana. Porém, cada obstáculo não precisa ser visto como algo intransponível e, portanto, uma fonte de pessimismo, mas, sim como uma oportunidade de crescimento pessoal e um recurso de memória que pode ser usado como uma diretriz provisória diante do acontecimento atual. 

Estamos no meio do caminho, ainda que nosso caminho seja a rotina cotidiana, as pedras são inevitáveis, mas, se pensarmos bem, são elas que tornam o caminho interessante e, é o aprendizado que obtemos ao superá-las, que dá sentido ao nosso caminhar.

Pedras também podem significar novas direções para o caminho.

4 comentários:

Hector disse...

Intereessante.

Osvaldo L. C. Necchy disse...

ótimo sua visão pelo viés filosófico! Drummond é um poeta filósofo! Esta pedra é inerente ao nosso cotidiano. Poderia ser também acrescentado o conceito cuidado de Heidegger nesta questão?!

Lucas C. Lima disse...

Eu tive outra interpretação. Para mim ele queria dizer que nós ficamos tão preocupados com as coisas grandes e problemas da vida que acabamos por esquecer coisas simples.

Acho que ele teve esta epifania enquanto caminhava, e, "no meio do caminho tinha uma pedra".

Então ele pensou "não irei me esquecer disto, não me esquecerei de prestar atenção em coisas pequenas".

"Nunca me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas retinas, tão fadigadas, nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra".

acidmind disse...

No meio do caminho, chutei a pedra do meio do caminho. Jamais meu pé doeu como nesse momento .